BOI




BOI

Animal cultuado pelo mundo e também entre nós, em torno da fi¬gura do boi (uma importante fonte de trabalho e de renda), existem lendas e outras narrativas que marcaram no Brasil sua presença em nosso folclore.
Uma das versões sobre sua origem é a de que estaria relacionada a um antigo culto ao deus egípcio da fertilidade (Apis), representado por um boi, que morria e ressuscitava, também praticado em outras regiões da Africa. Esse culto então teria sido trazido ao Brasil pelos escravos africanos.
O auto do boi apresenta um enredo básico em quase todo o país: a negra Catirina, grávida, com desejo de comer língua de boi, mas a do mais belo da fazenda. Seu marido, o "Pai Francisco" ou "Pai Chico", trabalhador na fazenda, mata o animal pertencente a seu patrão para atendê-la. O boi é morto.
O patrão por ele reclama, e depois de muitos entre¬meios de personagens caricaturados da sociedade, que vêm opinar sobre o ocorrido, o criminoso é descoberto. Rezas, rituais má¬gicos e remédios se seguem. O boi ressuscita e tudo vira festa.
Das diversas formas em que esse folguedo é apresentado em todas as regiões brasileiras, exemplifiquemos com os seguintes:

BOI-DE-MÁSCARA

Essa difere dos tradicionais bois do Norte brasileiro por seu ritmo e pelo uso de máscaras e "cabeções" pelos dançarinos. Não há a encena¬ção do enredo. Teria surgido no município paraense de São Caetano de Oliva.

BOI-BUMBA de Parintins, Amazonas

Megaevento, dos maiores do país, a festa do boi-bumbá de Parintins, Amazonas, é ali realizada há mais de oito décadas, no mês de junho, atualmente no "Bumbó-dromo", a grande arena onde ocorrem as apresentações.
Há um destaque maior para a presença de elementos indígenas, que o distingue do Bumba-meu-boi mara¬nhense (ressalte-se, porém, que o boi-bumbá é filho direto do bumba-meu-boi do Nordeste). Também se diferencia de outros bois pelo ritmo, pela indumentária, pela coreografia e personagens utilizados. Monumentais carros alegóricos e ricos figurinos fazem parte das apresentações, nas quais são evocados fatos, lendas e qualidades da Amazônia.
Uma acirrada disputa se trava entre os bois "Garantido", em que prevalece a cor vermelha, e "Caprichoso", em que predomina a cor azul.

BUMBA-MEU-BOI

Do Nordeste, especialmente no Maranhão, onde é um dos maiores festejos brasileiros, o Bumba-meu-boi prima pela riqueza e diversidade do figurino e dos elementos rítmicos e coreográficos. É usado o termo "sotaque" para as músicas que acompanham os bois maranhenses.
O que os distingue são os instrumentos musicais utilizados e a cadência do ritmo imprimido a cada espécie. Dentre as figuras se destacam o Pai Francisco, a Catirina, Dona Maria (mulher do amo), pajé, índios, vaqueiros, cazumbás (espé¬cies de palhaços, mascarados). Em outros Estados nordestinos, há variantes como o Boi-de-Reis, no Rio Grande do Norte, e o "Cavalo- Marinho", especialmente em Pernam¬buco e Paraíba.
Neste último, além da figura do boi, se destaca, entre várias outras, a do Cavalo-Marinho, espécie em torno da qual o povo criou diversas lendas. No Boi-de-Reis, há também outras, como os Galantes (ricamente vestidos, adornados com fitas coloridas e espe¬lhos); os Mascarados (trajando rou¬pas surradas, com os rostos pinta¬dos de tisna) e outras figuras de bi¬chos e assombrações.REIS-DE-BOI
E um folguedo que homenageia os Santos Reis, no qual se realiza o auto do boi, de grande ocorrência no Estado do Espírito Santo, especialmente nos municípios de Conceição da Barra e de São Mateus, estendendo-se a alguns do sul da Bahia. Compõe-se de vários elementos: o Boi, personagem principal, o Vaqueiro, Pai Francisco e a Catirina, João Mole (um boneco desengonçado), um grupo de marujos e outras figuras representando animais, monstros e fantasmas.

BOI DO NATAL

Na região Centro-Oeste, ocorre também o folguedo chamado "Boi do Natal", com o mesmo tema dos outros "bois", qual seja, o animal morto e ressuscitado. O que muda são alguns personagens, informa Carlos Felipe de Melo Marques, havendo lugar "para um caboclo, o Gregório; para um negro, o Mateus; e para um índio, o Caipora. Entre cantos, danças e palavras, o boi e seus companheiros, a mulinha, o cavalo de fogo e o jacaré brincam no meio do povo" ("O Grande Livro do Folclore", pág. 197, 2a Edição, Ed. Leitura).

BOI-DE-MAMÃO

Na região sul, especialmente em Santa Catarina, o "Boi" é o Boi-de-mamão. O conhecido enredo é encenado, mas outras figuras são nele introduzidas, como as de bonecos gigantes e outros animais. O nome "boi-de-mamão", segundo alguns autores, se referiria a um mamão verde que teria sido usado, às pressas, na confecção da figura do boi para mostrá-la a umas crianças.

MARUJADA

Antigo folguedo, de origem portuguesa, que retrata tanto os dramas enfrentados pelos marujos como os seus heróicos feitos em alto-mar, descobrindo terras, vencendo batalhas, em especial contra os mouros.
Esse folguedo conserva vestígios dos antigos autos portugueses da Nau Catarineta (antigo romance oral, de origem ibérica, cuja narrativa trata do desaparecimento de um navio português regressando de colônias).
Vários personagens fazem parte desse folguedo: o Almirante, o Capitão-de-mar-e-guerra, Capitão-de-fragata, marujos, cristãos, mouros, entre outros. O figurino dos membros do grupo lembra o dos antigos marinheiros.

A denominação varia ao longo das regiões em que aparece no Brasil:

Marujada, Marujos, Fragata, Barca, Chegança, Chegança de Marujos. No Nordeste, alguns se denominam, curiosamente, "Fandango", o qual, segundo Rogers Ayres, diretor do Balé Folclórico de Alagoas - Grupo Tran-sart, "corresponde Marujada de outros Estados brasileiros". Rogers acrescenta que "o único grupo existente atualmente em Alagoas está localizado no Pontal da Barra e é dirigido pelo mestre Aminadab".
Em Minas Gerais, informa Gustavo Cortes, há os "Marujos", que se apresentam nas festividades de Nossa Senhora do Rosário, de São Benedito e de Santa Efigênia, vestidos com os trajes típicos de marinheiros, ostentando o ro¬sário de lágrimas na cintura.
A Marujada de Bragança/PA, no entanto, muito difere dos demais folguedos existentes no Brasil. E composta por mulheres, às quais cabe o comando e a organização da festividade; os homens são apenas acompanhantes e tocadores. Não há muitas personagens além da Capitoa e da Sub-capitoa. As marujas vestem blusa branca, toda rendada e saia comprida rodada, vermelha ou azul.
Usam uma fita, a tiracolo, azul ou encarnada, de acordo com a cor da saia, bem como um chapéu cheio de plumas e de fitas de várias cores. E realizada no dia de São Benedito, no dia de Natal, no mês de dezembro e no dia Ia de janeiro. Não há dramatização na Marujada de Bragança nem alusões à Nau Catarineta oú a feitos marítimos.

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